Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
07/09/2026
5 min

Yara aposta R$ 1,2 bi em fertilizante de baixo carbono, mas escala ainda é desafio

Planta em Sluiskil, na Holanda, mira em reduzir emissões da produção de amônia, mas expansão depende de custo e demanda

Yara aposta R$ 1,2 bi em fertilizante de baixo carbono, mas escala ainda é desafio

SLUISKIL* — A Yara inaugurou nesta segunda-feira, 7, na Holanda, sua primeira unidade de captura e armazenamento de carbono associada à produção de fertilizantes. O projeto recebeu 200 milhões de euros (R$ 1,2 bilhão) e poderá capturar até 800 mil toneladas de CO₂ por ano durante a fabricação de amônia.

A unidade é o primeiro projeto da companhia com uma cadeia completa para capturar, transportar e armazenar o carbono. Agora, a Yara precisa levar o modelo para outras fábricas e criar demanda para o fertilizante produzido com menor intensidade de carbono.

“É aí que entram as cadeias de valor. Nenhuma empresa pode fazer isso sozinha. Nenhum governo pode fazer isso sozinho também”, afirmou Svein Tore Holsether, CEO global da Yara.

Para o executivo, a expansão precisa fechar financeiramente. “Porque, no fim das contas, também precisa fazer sentido financeiro. Não haverá transição verde com números vermelhos. Precisamos de escala”, disse.

A conta é especialmente difícil para uma indústria exposta ao gás natural. Cerca de 80% do gás consumido pela Europa é importado, e o combustível é essencial para a produção de amônia.

A guerra entre Rússia e Ucrânia, em curso desde 2022, expôs essa dependência. As tensões entre Israel e Irã e a crise no Estreito de Ormuz aumentam a incerteza sobre energia, transporte e preços.

O aperto já aparece nos negócios da Yara. No segundo trimestre de 2026, os preços mais altos da ureia elevaram as margens, mas compradores adiaram pedidos e as entregas caíram 17%.

Para o terceiro e o quarto trimestres, a companhia prevê custos com gás natural US$ 75 milhões e US$ 115 milhões maiores, respectivamente, na comparação com os mesmos períodos do ano anterior.

O desafio da escala

Em Sluiskil, o CO₂ gerado durante a produção de amônia é capturado e liquefeito. O gás segue de navio para a Noruega, onde a Northern Lights, joint venture de Equinor, TotalEnergies e Shell, faz o armazenamento permanente a 2,6 quilômetros abaixo do leito marinho.

É uma cadeia que atravessa dois países e depende de uma infraestrutura própria para transportar e armazenar o carbono. Para ampliar o modelo, outras fábricas precisarão utilizar essa estrutura.

Sluiskil está entre as primeiras fábricas de fertilizantes do mundo e é hoje a maior unidade de amônia e fertilizantes da Europa. Em 2025, a Yara produziu 7,4 milhões de toneladas de amônia e 20,8 milhões de toneladas de fertilizantes acabados.

A amônia está na base de produtos como ureia, nitrato de amônio, sulfato de amônio e fosfatos de amônio, incluindo MAP e DAP. O gás natural participa de sua fabricação e gera CO₂ como subproduto.

Na unidade da Yara, esse carbono é capturado antes de ser lançado na atmosfera. O processo não altera a composição do fertilizante. A diferença está nas emissões associadas à fabricação.

A Yara estima que a unidade capture aproximadamente 12 milhões de toneladas de CO₂ ao longo de 15 anos. Para que novos projetos sejam viáveis, a companhia terá de reduzir o custo da cadeia e encontrar compradores dispostos a reconhecer o menor nível de emissões.

A empresa já trabalha com companhias como a PepsiCo para reduzir a pegada de carbono ao longo da cadeia de alimentos. A ideia é fazer com que o atributo ambiental tenha valor também depois que o fertilizante deixa a fábrica.

Margens apertadas

O mercado brasileiro ajuda a mostrar o tamanho desse desafio. O país, um dos principais mercados da Yara, importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. As entregas chegaram a 49,1 milhões de toneladas em 2025, recorde histórico, mas o Rabobank projeta 45,1 milhões de toneladas em 2026.

A queda ocorre em um cenário de margens agrícolas mais apertadas, na sara 2026/27, a pior dos últimos 20 anos.Com menos espaço no orçamento, o produtor fica mais seletivo na compra de insumos.

Isso reduz a margem para um eventual prêmio por um fertilizante de menor intensidade de carbono. Para que a tecnologia avance, o valor da redução das emissões terá de ser reconhecido por outros elos da cadeia.

Holsether defende que esse processo comece nos fertilizantes e sementes e chegue até a indústria de alimentos e o consumidor.

“Quando pensamos em cadeias de valor completas, começando pelos fertilizantes e sementes e indo até a prateleira do supermercado, esse é um passo importante na direção certa”, afirmou.

A discussão não termina no preço. Para Holsether, uma redução persistente na aplicação de nutrientes abaixo do nível agronômico recomendado pode comprometer a produtividade das lavouras.

“Se os agricultores estiverem em uma situação em que aplicam menos do que o nível agronomicamente ideal em seus campos, isso terá consequências para a produção de alimentos tanto no curto quanto no longo prazo”, disse.

O efeito, segundo o executivo, pode ser difícil de separar de outros fatores no curto prazo, como clima e renda do produtor. No longo prazo, porém, a reposição inadequada de nutrientes tende a aparecer na produtividade.

* O repórter viajou a convite da Yara Fertilizantes

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
Distribuído por