Yara quer ampliar aposta em biológicos — mas a conta precisa fechar
Norueguesa amplia investimentos em pesquisa, avalia parcerias e aquisições e vê produtos biológicos como uma nova frente de crescimento

HANNINGHOF (ALEMANHA)* — A Yara Fertilizantes tem uma aposta para crescer além do mercado tradicional de fertilizantes: os produtos biológicos. A companhia vê nesse segmento uma oportunidade para complementar seu negócio de nutrição de plantas, mas estabelece uma condição para ampliar os investimentos: a conta precisa fechar.
A preocupação ganha contorno dado o contexto de margens apertadas para o produtor rural. Na safra 2026/27, as margens para a soja devem ser as piores dos últimos 20 anos, segundo a Cogo Inteligência de Mercado.
Odiscurso não é novo, mas reforça um posicionamento defendido pela empresa há algum tempo: investir em soluções biológicas e de menor impacto ambiental precisa gerar retorno financeiro. Em 2025, a Yara registrou US$ 15,7 bilhões em receita, com EBITDA ajustado de US$ 2,8 bilhões.
Com os biológicos, a companhia busca transformar produtos de maior valor agregado em uma nova avenida de crescimento. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) somaram US$ 98 milhões em 2025, o equivalente a cerca de 0,6% da receita registrada no período.
“O negócio biológico está crescendo, mas, em termos da dimensão da Yara, ainda é relativamente pequeno. É um negócio muito rentável e complementa nosso negócio de nutrição de plantas”, disse Luis Torres, vice-presidente de Agronomia da Yara, em entrevista a jornalistas no Centro de Pesquisa e Inovação da companhia.
Segundo o executivo, o negócio de biológicos já apresenta resultados para a companhia, embora ele não divulgue números específicos. A área tem boa rentabilidade, apesar de ainda representar uma parcela pequena diante do tamanho global da empresa.
Entre os investimentos nessa frente está a expansão da fábrica de Howden, no Reino Unido, que deverá mais que dobrar a capacidade de produção das linhas YaraVita e YaraAmplix quando entrar em operação em 2026.
A primeira é voltada à nutrição especializada das culturas, enquanto a segunda concentra as tecnologias de bioestimulantes, com produtos voltados a melhorar a eficiência do uso de nutrientes, apoiar a saúde do solo e ampliar a resistência das plantas a estresses ambientais.
Entre as frentes de desenvolvimento estão os bioestimulantes, novas formulações e sistemas de recomendação que combinam dados e informações agronômicas para indicar ao produtor quais produtos utilizar e em que quantidade.
Para a Yara, essa busca por eficiência ganha importância em um país como o Brasil, que depende de fertilizantes importados. Quanto maior o aproveitamento do nutriente aplicado na lavoura, maior pode ser o retorno sobre o insumo utilizado.
A aposta na pesquisa
Para construir essa nova frente de crescimento, a Yara aposta em uma combinação de pesquisa própria e parcerias externas.
A lógica é simples: em um mercado em que as condições de solo, clima e culturas variam muito entre regiões, a empresa entende que não basta desenvolver uma tecnologia global; é preciso adaptá-la para funcionar no campo.
“Investimos em pessoas, investimos em parcerias e em capacidades de pesquisa. Não mantemos esse conhecimento apenas dentro da companhia, mas também compartilhamos em diferentes tipos de parcerias, consórcios e associações”, afirmou Torres.
Hoje, a Yara mantém uma estrutura com mais de 100 pesquisadores e ampliou os investimentos em inovação nos últimos anos. Neste ano, a companhia destinou, até o momento, mais de US$ 6 milhões em parcerias externas para desenvolver novos produtos, avaliar tecnologias e validar soluções em diferentes mercados.
O movimento também reflete uma mudança na estratégia de inovação da indústria de fertilizantes. Em vez de depender apenas de grandes descobertas dentro de laboratórios próprios, empresas como a Yara buscam construir uma rede de universidades, centros de pesquisa e parceiros tecnológicos para acelerar o desenvolvimento de produtos.
A expansão coloca a companhia diante de uma decisão estratégica: crescer por meio de aquisições ou desenvolver as tecnologias internamente.
A Yara avalia algumas alternativas, mas afirma que ainda não encontrou uma empresa que ofereça a combinação de produtos e tecnologias considerada ideal para o portfólio.
“Até que isso aconteça, decidimos continuar nossos próprios desenvolvimentos internamente”, disse o executivo.
A escolha mostra uma postura mais cautelosa em um mercado que tem atraído investimentos e novas empresas. Para a Yara, o desafio não é apenas encontrar uma tecnologia promissora, mas transformar essa tecnologia em um negócio capaz de gerar retorno.
É justamente nesse ponto que entra a principal condição da estratégia da companhia. A transição parasoluções mais sustentáveis precisa ser economicamente viável.
Torres afirma que a transição verde ainda enfrenta desafios porque nem todos os mercados estão dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis. “A transição verde precisa ser lucrativa”, afirmou o executivo.
Segundo Torres, a companhia continuará investindo em soluções de menor emissão de carbono e novas tecnologias, mas a expansão desses negócios precisa beneficiar todos os envolvidos na cadeia.
“Queremos desenvolver produtos e negócios que estejam em uma situação de ganha-ganha. Eles precisam ser rentáveis para a empresa, mas também precisam ser rentáveis para o agricultor”, disse.
*O repórter viajou a convite da Yara Fertilizantes
