Cenário Macro: apresentação Mensal - Outubro de 2026
Ver Relatório CompletoCenário Global: O debate sobre os juros globais segue no centro das atenções. Nos EUA, o Fed elevou a taxa em 25 pontos-base em setembro, para 3,75%–4,00%. Diante de atividade resiliente, inflação persistente e condições financeiras frouxas, esperamos novas altas em dezembro e março, com taxa terminal de 4,4%. O cenário, contudo, segue altamente dependente dos dados. Em nossa visão, se a inflação de setembro repetir a dinâmica de agosto, uma alta já em outubro volta à mesa. Na Zona do Euro, a atividade surpreendeu positivamente e o BCE também elevou os juros em 25 pontos-base em setembro, com comunicação mais hawkish. Esperamos duas altas adicionais, para 3,0%. Na China, a economia segue em duas velocidades: a produção industrial acelerou para 5,2% a/a em agosto, enquanto o investimento em ativos fixos recua 7,2% no acumulado do ano, com contração de 19,9% no setor imobiliário.
Cenário Doméstico:
Atividade econômica: A atividade segue em desaceleração no terceiro trimestre, após crescimento de 0,5% t/t no 2T26, e projetamos avanço de apenas 0,2% t/t no período. Os dados de indústria, comércio e serviços mostram perda de fôlego adicional, com carregamentos estatísticos fracos ou negativos para o trimestre. Mantemos a projeção de crescimento do PIB em 1,8% em 2026. Para 2027, esperamos desaceleração adicional, com crescimento de 1,1%, diante de juros ainda elevados, incerteza fiscal e condições de crédito mais restritivas. Os riscos seguem inclinados para baixo, sobretudo pela combinação de endividamento elevado das famílias, maior comprometimento de renda e inadimplência em níveis historicamente altos.
Inflação: Revisamos nossa projeção do IPCA para 5,3% neste ano (de 5,2%) devido a uma dinâmica pior dos combustíveis no curto prazo. Para 2027, revisamos nossa projeção de 4,4% para 4,8%, uma vez que incorporamos um ajuste de 15% na gasolina no primeiro trimestre e o reajuste do Bolsa Família que levou a uma trajetória menos negativa de hiato ao longo dos próximos trimestres.
Setor externo: Mantemos nossa projeção de superávit comercial em US$85 bilhões em 2026 e 2027, sustentado pelo forte desempenho das exportações, especialmente de petróleo. Esperamos redução do déficit em transações correntes para 2,4% do PIB em 2026 e 2,3% em 2027, enquanto o financiamento externo permanece confortável, com o IDP acima do déficit em conta corrente e o Broad Basic Balance próximo do equilíbrio. Na margem, contudo, o fluxo cambial perdeu força, refletindo maiores saídas financeiras e menor ingresso comercial. O cenário global mais adverso, com Fed mais hawkish, abertura das curvas de juros globais, choque de energia e menor diferencial de juros, representa risco adicional para os fluxos financeiros. Mantemos a projeção de câmbio em R$5,40/US$ no fim de 2026 e R$5,50/US$ no fim de 2027.
Política fiscal: O governo anunciou um pacote de medidas, incluindo reajuste do Bolsa Família, fim das bets, Desenrola 3.0 e subsídios aos combustíveis, com impacto fiscal estimado de R$22 bilhões em 2026 e R$56 bilhões em 2027. Há espaço para acomodá-las sem inviabilizar o limite de gastos e as metas fiscais, mas elas engessam ainda mais o orçamento e ampliam o impulso fiscal em 2027. Projetamos déficits primários de 0,6% do PIB em 2026 e 0,2% em 2027. A dívida bruta segue em alta, atingindo 83,3% do PIB em 2026 e 87,6% em 2027.
Política monetária: Esperamos manutenção da Selic em 13,75% na próxima reunião e projetamos a taxa em 13,75% no fim de 2026 e 12,50% no fim de 2027. A piora do balanço de riscos reforça nossa expectativa de pausa. O reajuste do Bolsa Família e a proibição das bets podem impulsionar a atividade a partir do fim deste ano, enquanto a alta dos preços de energia e dos juros longos globais aperta as condições financeiras e eleva o risco de um cenário adverso para emergentes com dinâmica fiscal adversa. Choques de oferta, como El Niño, a possível mudança da escala 6x1 e a nova alta do petróleo, podem gerar efeitos de segunda ordem e voltar a pressionar as expectativas longas, como observado neste ano. A desalavancagem das famílias segue como risco baixista para a atividade em 2027, mas não justifica uma reação antecipada do Copom diante dos riscos inflacionários na direção oposta. Um resultado eleitoral com apreciação do câmbio e expectativas próximas dos patamares atuais aumentaria a probabilidade de prosseguimento do ciclo. Ainda assim, a indefinição sobre a política fiscal do próximo governo exige cautela diante de movimentos de curto prazo.
