China Focus | Setembro 2026
Ver Relatório CompletoA economia chinesa chega ao fim do terceiro trimestre com uma recuperação mais limitada do que antecipávamos em julho. Após crescer 5,0% a/a no 1T26 e 4,3% a/a no 2T26, a atividade segue sustentada pelas exportações e pela manufatura de alta tecnologia, enquanto a demanda doméstica permanece frágil. A extensão do conflito no Oriente Médio prolongou as restrições de oferta e as pressões de custos associadas ao petróleo, dificultando a normalização industrial. Nesse contexto, revisamos nossa projeção de PIB de 4,7% para 4,6% em 2026, incorporando a persistência do choque energético e os dados mais fracos de atividade.
Os dados de agosto confirmam essa composição desequilibrada. A produção industrial acelerou de 4,5% para 5,2% a/a, acima do consenso de 4,8%, com melhora em máquinas elétricas, químicos e farmacêuticos. As cadeias ligadas à inteligência artificial continuam oferecendo sustentação, mas parte do avanço também reflete o alívio das restrições ao refino. A recomposição do abastecimento de petróleo permitiu uma recuperação parcial da atividade nas refinarias. Ainda assim, esse alívio permanece sujeito à evolução do conflito e à continuidade do abastecimento, limitando a perspectiva de uma recuperação industrial mais disseminada.
Do lado doméstico, o quadro foi mais adverso. As vendas no varejo desaceleraram de 0,6% para 0,4% a/a, abaixo dos 0,8% esperados, com a queda nas vendas de automóveis se aprofundando para 18,5% a/a. Os serviços também perderam tração, com o índice de produção passando de 4,3% para 4,1% a/a. Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego subiu de 5,2% para 5,3%, acima do consenso de estabilidade. A combinação de mercado de trabalho fraco, incerteza e reversão da antecipação de compras de bens duráveis continua limitando o consumo das famílias e a formação de uma retomada mais consistente.
O investimento permanece como outra fragilidade. O investimento em ativos fixos acumulado de janeiro a agosto recuou 7,2% a/a, ante queda de 6,7% até julho e expectativa de contração de 7,1%. No mesmo período, o investimento em infraestrutura caiu 4,0% a/a, o investimento na manufatura recuou 2,3% a/a e o investimento imobiliário contraiu 19,9% a/a. Assim, a fraqueza vai além do setor imobiliário e evidencia que o apoio público ainda não se traduziu em uma recuperação ampla do investimento.
Os dados de crédito reforçam essa leitura. O crescimento do estoque de empréstimos bancários desacelerou de 5,1% para 4,9% a/a em agosto, enquanto o estoque de financiamento social total passou de 7,4% para 7,2% a/a. Os empréstimos às famílias registraram redução líquida no mês, e o crédito às empresas também permaneceu fraco. Esse quadro é compatível com uma demanda doméstica ainda contida e sugere que a recuperação dependerá de maior execução fiscal e de financiamento direcionado para sustentar o investimento.
A inflação também mostra os efeitos persistentes do choque de oferta. O CPI acelerou de 0,5% para 0,8% a/a em agosto, com núcleo de 1,0%, enquanto o PPI passou de 3,5% para 3,8% a/a. Os preços de compra dos produtores subiram 5,8% a/a, com combustíveis e energia avançando 9,8%. Em nossa avaliação, essa composição é compatível com pressões de custos e dificuldade de repasse em setores expostos à demanda doméstica, sem evidência de uma retomada ampla da inflação puxada pelo consumo.
Nesse contexto, esperamos que o governo aumente o estímulo à frente, principalmente pela aceleração de medidas já aprovadas. A execução fiscal abaixo do planejado abre espaço para maior gasto e emissão de títulos especiais dos governos locais no restante do ano. Também deve ganhar tração o apoio off-budget, com os RMB 800 bilhões previstos em novos instrumentos de financiamento dos bancos de política pública. Os primeiros desembolsos começaram a ocorrer no início de setembro. A liberação desses recursos deve facilitar o financiamento e a execução de projetos de investimento.
Com isso, esperamos alguma melhora da atividade na ponta em setembro. A perspectiva de maior execução dos recursos já aprovados e o início dos desembolsos dos novos instrumentos favorecem a recuperação do investimento. A sustentação das exportações de tecnologia e a estabilização do refino também devem ajudar, desde que as restrições de abastecimento não se agravem. Assim, a expectativa de melhora se apoia principalmente na execução das políticas e na recomposição parcial da oferta.
Nossa visão
Revisamos a projeção de PIB de 4,7% para 4,6% em 2026. A extensão do conflito no Oriente Médio e a fraqueza da atividade tornam a recuperação mais gradual, mesmo com o avanço industrial de agosto. Seguimos esperando melhora na ponta em setembro e maior apoio fiscal no restante do ano, concentrado em infraestrutura, tecnologia e financiamento direcionado. Esse impulso deve permitir crescimento dentro da meta oficial de 4,5% a 5,0%, mas consumo e setor imobiliário continuam limitando a expansão. A recomposição esperada permanece insuficiente para caracterizar uma mudança estrutural na sustentação da demanda doméstica.
Em anexo, o relatório completo
BTG Pactual Macro Strategy
