Commodities – Compasso da Semana – 28/07/2026
Ver Relatório Completo1. Um breve panorama agropecuário no Brasil, proxy MT; e uma nota sobre café
Milho: a colheita de milho 2025/26 no MT atingiu 90,66% da área em 24/07, favorecida pelo tempo firme, e a produção é estimada pelo IMEA em recorde de 57,06 Mt (+2,9% a/a), com produtividade de 128,64 sc/ha. A grande oferta mantém pressão de baixa sobre os preços, mas a demanda de etanol tem limitado tal pressão. Assim, o indicador IMEA subiu 3,77% até sexta-feira passada, para R$ 41,92/sc.
Olhando para a frente, o clima é o principal risco operacional de curto prazo no Centro-Oeste: a região permanece quente e seca, com máximas entre 35°C e 40°C em áreas do MT – há indicação de chuva pontual no oeste e norte do estado no horizonte de 15 dias, sem alteração estrutural do padrão seco. Para o soja 2026/27, isso eleva a relevância do início efetivo das chuvas na transição para o plantio, enquanto a comercialização antecipada permanece em 23,33% da produção projetada para o MT.
Soja: o disponível no MT alcançou R$ 121,68/sc na semana passada, após romper R$ 120/sc, sustentada por entressafra, maior esmagamento doméstico e valorização prévia em Chicago. O esmagamento no primeiro semestre cresceu 4,53% a/a, enquanto a comercialização 2025/26 chegou a 87,68%, reduzindo a exposição imediata do produtor à oscilação de preços.
O suporte externo, contudo, perdeu força neste início de semana com a melhora prevista no Corn Belt. A demanda chinesa por soja americana, os prêmios em Santos e o petróleo elevado ainda oferecem sustentação, mas a confirmação de chuvas nos EUA tende a reduzir o componente climático da alta. Para MT, o balanço segue construtivo no físico local, porém com maior risco de correção na formação de preço via Chicago.
Pecuária: o mercado físico de boi no MT mostra aperto de oferta no curto prazo, com o boi gordo a prazo foi cotado em R$ 316,68/@, alta semanal de 0,96% na sexta-feira passada, enquanto as escalas de abate encurtaram para 11 dias úteis. A menor disponibilidade de animais terminados limita a capacidade dos frigoríficos de pressionar preços, embora o diferencial MT-SP ainda siga negativo.
O principal vetor baixista é a exportação de carne. O ritmo diário dos embarques brasileiros em julho rodava 9,91% abaixo do mesmo período no ano anterior, afetado pela salvaguarda chinesa e pela tarifa adicional sobre novos embarques. O valor médio exportado, porém, permaneceu em US$ 6.368,89/t (+14,77% a/a), o que preserva parte da rentabilidade externa e reduz o impacto da queda de volume
sobre a demanda por gado.
Café, Sudeste: chuvas no Sul de MG e no Noroeste de SP elevam o risco de qualidade para café ainda em terreiro; neste momento, a preocupação é mais com defeitos e deságio pós-colheita do que com atraso amplo da colheita.
No internacional, o USDA projeta produção mundial de 189 milhões de sacas, +10,8 milhões ante o ano anterior, pressionando as cotações. Apesar disso, os futuros de Arábica sobem pelo segundo pregão consecutivo na semana, impulsionados pela combinação de oferta restrita no curto prazo, atrasos na colheita brasileira causados por chuvas em importantes regiões produtoras e gargalos logísticos, fatores que mantêm o mercado sensível e sustentam a volatilidade dos preços. Além das preocupações com a disponibilidade de café no curto prazo, as tensões no Mar Vermelho seguem elevando custos e atrasando embarques. Portanto, o mercado espera uma maior produção anual de café, mas os volumes não estão abastecendo a demanda de imediato – na manhã de hoje, o spread setembro/dezembro em NY operava acima de 20 cents/lb, muito acima dos patamares anotados em momentos passados de estresse de oferta.
2. Agropecuária internacional e dois centavos sobre petróleo e derivados
Grãos: a forte queda dos grãos em Chicago no início da semana reflete a reprecificação do risco climático americano. Os modelos passaram a apontar quebra do bloqueio atmosférico, com mais frentes frias, tempestades e chuvas no Corn Belt em agosto. Isso reduz o prêmio associado ao calor extremo, sobretudo para a soja, que ainda pode responder à melhora hídrica durante a fase reprodutiva. Vide maior detalhe em nossa nota “Clima EUA | Mercado entra em uma nova fase”.
Entretanto, o risco climático não desapareceu: Dakotas, Nebraska, Minnesota e Iowa acumulam estresse hídrico em julho, e parte da perda potencial do milho pode já estar consolidada. Agosto será decisivo para separar alívio meteorológico de recuperação produtiva; o mercado tende a migrar de uma precificação de risco potencial para revisões efetivas de produtividade. De volta ao Brasil, o ponto central a se levar em conta é que uma safra americana menos ameaçada reduz suporte externo justamente durante o grosso da comercialização do safrinha.
Pecuária EUA: os futuros de boi gordo e boi magro corrigiram fortemente – em duas semanas, o feeder cattle de agosto perdeu mais de US$ 9/cwt e o live cattle mais de US$ 8/cwt. A queda combinou liquidação de posições compradas, enfraquecimento do boxed beef e do CME Feeder Cattle Index, além da expectativa de reabertura parcial da fronteira para importação de gado mexicano via Douglas, Arizona, em 24 de agosto.
Ainda assim, o ciclo pecuário americano continua apertado no médio prazo. O estoque total cresceu apenas 0,2% a/a, para 94,2 milhões de cabeças – primeiro aumento desde 2018 –, mas o número de vacas de corte caiu 0,7% e a safra de bezerros de 2026 recuou 1,5%. A seca e as condições ruins de pastagem no Oeste atrasam a recomposição do rebanho, mantendo a oferta de reposição restrita e relevante para a leitura global de proteína animal.
Energia, frete e logística – impacto transversal: o risco geopolítico no Oriente Médio segue relevante para os custos agrícolas. Ataques houthis próximos a Yanbu, combinados às restrições no Estreito de Ormuz e à paralisação de cerca de 1,5 mbd do CPC no Mar Negro, aumentam o custo e o tempo de transporte de petróleo e derivados. O efeito imediato é maior pressão sobre fretes de Suezmax e Aframax, diesel e gasoil.
Para o agro brasileiro, o canal de transmissão é duplo: combustível mais caro eleva frete interno e custos operacionais, enquanto petróleo firme sustenta a competitividade relativa dos biocombustíveis – especialmente etanol de milho e óleo de soja. O cenário não implica perda permanente dos volumes redirecionados, mas maior ineficiência logística; portanto, a variável mais importante é a persistência de fretes elevados, não apenas o preço do Brent.
