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Sacre Investimentos
22 de jul. de 20267 min

Commodities – Grãos | Mar Negro e Clima nos EUA

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Notas de mercado conforme evoluem os fundamentos das commodities sob nossa cobertura. 

RESUMO EXECUTIVO


•  Mar Negro: por ora, a principal ameaça é logística, não de produção, sustentando prêmios de risco para grãos, sobretudo trigo.

•  Milho e trigo seguem favorecidos: o milho combina clima adverso nos EUA, menor oferta europeia e disrupção no Mar Negro; o trigo é impulsionado principalmente pelos gargalos logísticos.

•  Clima nos EUA preocupa: calor e baixa precipitação persistem no norte do Corn Belt durante fases críticas das lavouras, elevando o risco para milho e trigo de primavera.

•  Viés permanece construtivo: o rally depende da continuidade dos problemas climáticos e logísticos, enquanto chuvas generalizadas e normalização do Mar Negro seriam os principais fatores de reversão.
 

No momento em que escrevemos esta nota, o mercado de grãos em Chicago dá continuidade ao rally iniciado ao final de junho – soja novembro sobe 1,3% no dia, 8% no mês; farelo e óleo de soja, ambos com vencimento para agosto, sobem 8% e 11% no mês, respectivamente; milho setembro sobe 1,9% no dia, 10% no mês; trigo SRW (inverno) setembro sobe 4,1% no dia, 19% no mês (vide PDF em anexo com os valores da abertura de hoje cedo e evolução das curvas futuras em 20/07).

Em resumo: o complexo de grãos se movimenta com dois vetores de alta simultâneos: um prêmio geopolítico-logístico no Mar Negro, mais relevante para trigo, milho europeu e óleos vegetais; e um prêmio climático concentrado no noroeste do Corn Belt dos EUA, especialmente para milho e trigo de primavera. O ponto central não é perda imediata de oferta física, mas a crescente dificuldade de executar fluxos comerciais – por navios, portos, ferrovias e seguro – em um contexto no qual o clima reduz a margem de segurança da oferta americana e europeia. Mantemos viés construtivo para o complexo, embora a continuidade do movimento dependa da duração das restrições logísticas e da confirmação do estresse climático nas próximas leituras de lavoura. E, claro, a ressurgência das operações cinéticas no Ormuz é mais um vento favorável para o preço dos grãos.

Os principais gatilhos de reversão do rally atual seriam chuva ampla e duradoura no noroeste do Corn Belt, estabilização dos ratings estaduais, reabertura de Kerch/Azov e normalização das chamadas de navios nos portos ucranianos.

Mar Negro segue no radar do trading

Antes de tudo, para maior contexto sobre os desenvolvimentos recentes na região, confira nosso material especial aqui: Mar Negro – A Geografia do Risco em Mutação.

O Mar Negro entrou em uma fase mais perigosa porque o risco passou a atingir simultaneamente Rússia e Ucrânia. A Ucrânia enfrenta aversão de navios a seus portos, danos a infraestrutura e capacidade limitada de desviar volumes para o Danúbio ou para ferrovias; a Rússia, por sua vez, perdeu fluidez no Azov/Kerch e precisa redirecionar carga para Novorossiysk. O mercado deve interpretar isso prioritariamente como um problema de logística, frete, seguro e execução, e não como destruição permanente dos estoques. Ainda assim, o efeito econômico é relevante: cerca de um quarto das exportações russas pode estar interrompido ou sujeito a rotas mais caras, enquanto aproximadamente um terço da capacidade ucraniana permanece comprometida. O ponto de inflexão seria uma interrupção operacional de Novorossiysk, hoje o principal escape russo; nesse cenário, o prêmio de trigo poderia acelerar de forma material e puxar consigo o complexo de grãos, especialmente o milho.

A repercussão do conflito nos preços é diferenciada. No trigo, compradores na África, Oriente Médio e Mediterrâneo buscarão originar o grão primeiro na União Europeia, Canadá, Austrália e Argentina; os EUA entram mais tarde nessa fila, o que limita a leitura de que toda disrupção no Mar Negro se converte automaticamente em exportação americana. Já no milho, a oportunidade para os EUA é mais direta: a Ucrânia é relevante no comércio global de ração animal, a seca e o calor na Europa reduzem a produção regional e a demanda de pecuaristas europeus terá de buscar substitutos. No mercado físico ainda não identificamos situação de pânico: a Tunísia aceitou pagar mais por trigo russo via Novorossiysk, enquanto a Jordânia cancelou uma licitação, e Egito e Iraque parecem relativamente cobertos. Portanto, o risco sustenta o prêmio, mas a demanda ainda é seletiva e sensível a preço. O spread setembro-dezembro da Euronext e a decisão de compra de Marrocos/Turquia até setembro serão indicadores críticos para testar se a Europa Ocidental capturará efetivamente o fluxo deslocado.

Há ainda canais de segunda ordem. Rússia e Ucrânia são fornecedores importantes de óleo de girassol, e a restrição logística aperta a disponibilidade tanto para alimentos quanto para biodiesel. Em paralelo, a tensão no Ormuz eleva diesel, petróleo e frete, reforçando preços de oleaginosas via biocombustíveis e aumentando custos de insumos agrícolas. A síntese é que estamos diante de uma guerra contra cadeias logísticas: no Mar Negro, alimentos e fertilizantes; no Ormuz, energia e fertilizantes. O risco a monitorar não é apenas o preço do trigo, mas chamadas de navios a Odesa/Chornomorsk, fluxo por Danúbio, integridade de Novorossiysk, tarifas ferroviárias e prêmios de seguro. Enfim, um cenário pouco trivial e, até recentemente, mal precificado.

Clima nos EUA

Como dissemos no passado, o mercado de grãos costuma operar de forma unidimensional durante o chamado “mercado climático”, quando chuva e sol no Corn Belt se tornam os parâmetros centrais do trading.

Nos EUA, o tema atual é a divergência regional de clima e condições de lavoura. Iowa, que frequentemente domina a percepção do mercado, permanece relativamente confortável: milho em 80% bom/excelente, chuva acumulada de 30 dias ligeiramente acima do normal e temperaturas elevadas, mas não extremas. O risco está no noroeste do Corn Belt – Dakota do Norte, Dakota do Sul e Minnesota registraram quedas de 10, 8 e 4 pontos, respectivamente, nos ratings de milho, combinando mínimas noturnas mais de 5°F acima do normal com precipitação de apenas 45%, 51% e 57% da normal nos últimos 14 dias. Nebraska, embora menos quente, recebeu somente 40% da chuva normal. O padrão é particularmente preocupante porque ocorre durante polinização do milho e antecede o enchimento de grãos programado para agosto.

A atualização do modelo GFS reforçou esse prêmio climático: apenas 42% da precipitação normal prevista para áreas produtoras de milho nos próximos sete dias, acompanhada de anomalias de temperatura de +8,7°F na Dakota do Norte, +7,3°F na Dakota do Sul, +6,6°F no Nebraska e +5,8°F em Minnesota. Mesmo no horizonte de 8 a 14 dias, a chuva projetada segue abaixo da normal e as temperaturas continuam elevadas. Isso ajuda a explicar a alta do milho dezembro para máximas desde maio e adiciona risco ao trigo de primavera, cujas condições também deterioraram fortemente em Montana, Dakota do Norte e Dakota do Sul (em um contexto onde o trigo de inverno já passou por forte redução produtiva devido, também, aos desafios climáticos). O mercado, portanto, não negocia uma quebra de safra nacional já definida, mas sim uma deterioração regional que pode invalidar as teses/estimativas de rendimento acima da tendência caso o padrão persista.

Para concluir: no soja, o clima é suporte adicional, mas o principal vetor continua sendo a demanda chinesa e a expectativa de novas vendas anunciadas. No milho, a combinação de risco de produtividade doméstica nos EUA e Europa, a disrupção no Mar Negro e uma potencial substituição de ração de trigo para milho é construtiva, embora o balanço global ainda folgado tenha maior capacidade de absorver choques de oferta em comparação ao soja. No trigo, o bull case é mais direto: logística no Mar Negro, safra HRW curta no sul dos EUA e risco climático no trigo de primavera.