Radar Diário Diário de Ações - 03/03/26
Financeiro (ex-Bancos) (Eduardo Rosman / Thiago Paura / Ricardo Buchpiguel / Bruno Henriques)
- IRB Brasil RE (IRBR3); COMPRA; Preço-alvo R$ 60,00
Em reunião com investidores em São Paulo, Rodrigo Botti, “Country Head” da Lockton Re, ex-VP/CFO do IRB e ex-CEO da Terra Brasis, conversou sobre a dinâmica estrutural do mercado brasileiro de (res)seguros e o posicionamento do IRB. A reunião abordou tendências de retenção, alocação de capital, seguro garantia e debates regulatórios, com destaque para a queda estrutural da retenção doméstica de prêmios e reservas e a maior dependência de capacidade offshore, em direção a um modelo com menor consumo de capital. No seguro garantia, a demanda segue forte com avanço de garantias judiciais e garantias financeiras, mas transparência e controle de acumulação foram apontados como temas críticos para sustentabilidade e mitigação de risco sistêmico. Sobre o IRB, foram reconhecidos avanços quanto a disciplina em subscrições, com a variável central sendo qualidade da subscrição, equilíbrio de portfólio e provisões atuariais independentes, além de restrições internacionais como colateral nos EUA e presença de capital na Europa. O debate também incluiu estratégia entre pure play e grupos verticalmente integrados, necessidade de Chinese walls, e uma visão regulatória relativamente positiva, com agenda em SUSEP e no Ministério da Fazenda, desenvolvimento de ILS e discussão de regras de colateral no Brasil.
Varejo & Consumo (Luiz Guanais / Yan Cesquim / Luis Mollo, CFA)
- Nota Setorial - Varejo & Consumo
Reunião com Alexandre Santos, diretor de dados da IQVIA
Em reunião com Alexandre Santos, diretor de dados da IQVIA, foi discutida a perspectiva de 2026 para o varejo farmacêutico no Brasil, com 2025 mostrando crescimento de ~10%, mas de 6–7% excluindo GLP-1, que se tornaram o principal motor incremental. Para 2026, a expectativa é de reaceleração, possivelmente para um patamar de 13-15% sustentada por vencimentos de patentes e maior penetração em volume, em um contexto de mudanças estruturais de distribuição com e-commerce representando 15–20% da receita e tendência de maior concentração entre grandes redes. A perda de exclusividade de moléculas GLP-1 começa a partir de 2026 em alguns mercados ex-EUA, incluindo o Brasil para semaglutida, com evidências históricas de queda de preços de 50–60% em dois anos e, no Brasil, reduções de 55–73% após entrada de genéricos, enquanto o mercado tende a se expandir por maior acesso. Empresas locais se preparam para o ciclo pós-patente, com Grupo NC bem-posicionado e Eurofarma com aliança com a Novo Nordisk, mas com barreiras relevantes como complexidade de produção, cadeia refrigerada e possível escassez logística, e genéricos podendo chegar a ~30% do volume até o fim de 2026. A dinâmica de preços deve combinar queda inicial próxima de 50% e erosão acumulada de ~65% em cinco anos, com volume crescendo e margens normalizando, ao mesmo tempo em que a consolidação de distribuidores e o ganho de participação das grandes redes são reforçados por digitalização e vantagens de escala.
Varejo brasileiro e cenário macro
O varejo brasileiro segue como um dos setores mais sensíveis ao cenário macro, com consumo fortemente ligado a juros, disponibilidade de crédito e balanço das famílias, após um ciclo desde 2020 que incluiu o boom na pandemia e posterior normalização com aperto financeiro, inflação e piora de alavancagem. Entrando em 2026, apesar de inflação menor, os juros reais permanecem restritivos e o ciclo de cortes é esperado para começar apenas em março e avançar de forma gradual, com alguma opcionalidade via medidas fiscais, alívio tributário e juros mais baixos ao longo do ano. A análise com dados da PMC/IBGE e de 20 varejistas listadas desde 2019 indica correlação negativa entre desempenho do varejo e Selic, com maior sensibilidade em móveis e eletrodomésticos e aumento dessa sensibilidade ao olhar volumes, sugerindo que a recuperação de volume seguirá limitada enquanto os juros reais forem restritivos. A restrição mais relevante é a alavancagem das famílias, com comprometimento de cerca de um terço da renda mensal com juros e amortização e estresse concentrado em baixa renda, enquanto originação de crédito e vendas no varejo exibem correlação de 0,97 desde 2014. Em 2026, a ampliação da isenção do IRPF para R$5.000 e redução de alíquotas até R$7.350 a partir de janeiro deve beneficiar ~14–15 milhões de pessoas e injetar até R$31 bilhões, com parte destinada a quitar dívidas e parte a consumo, além de Bolsa Família como estabilizador. No e-commerce, o GMV online (ex-cross-border) é estimado em ~R$380 bilhões em 2025 e ~R$436 bilhões em 2026, com concorrência pressionando o ganho econômico marginal, enquanto no segmento farmacêutico o crescimento defensivo é reforçado por consolidação e GLP-1, e a carteira recomendada prioriza farmácias, Smart Fit e Vivara, além de C&A, mantendo cautela em segmentos discricionários dependentes de crédito.
Transportes (Lucas Marquiori / Fernanda Recchia / Samuel Alkmin / Marcel Zambello)
- Localiza&Co (RENT3); COMPRA; Preço-alvo R$ 55,00
O acompanhamento mensal de preços FIPE mostrou em fevereiro alta de 0,2% m/m nos preços de carros novos (vs. 0,4% no mês anterior) e queda de 0,7% m/m nos usados (vs. -0,5% em janeiro), levando o spread usado–novo para 0,9% (vs. 0,8%). A análise considera os 15 modelos líderes em vendas diretas da Fenabrave nos últimos 18 meses, com anos-modelo 2023–2026, e os preços de 0km baseados em tabelas oficiais, que podem diferir dos valores transacionados. Por ano-modelo, os usados caíram em média 0,7% m/m, com 2026 em -0,5%, 2025 em -0,8%, 2024 em -0,7% e 2023 em -0,7%, e as maiores quedas por modelo foram BYD Song (-1,8%), Renault Duster (-1,2%) e Peugeot 2008 (-1,1%). No crédito automotivo, o Banco Central mostrou resiliência em janeiro, com estoque total em R$546 bilhões (+11% a/a; +1% m/m), carteira de pessoas físicas em R$404 bilhões (+15% a/a; +2% m/m) e concessões de R$23,2 bilhões (+15% a/a; -18% m/m), com pessoas físicas em R$19,9 bilhões (+20% a/a; -14% m/m). Interpretamos o dado de fevereiro como possivelmente cíclico e sazonal (Carnaval e menos dias úteis), observamos que a Localiza já reportou 59 mil veículos vendidos no 2M26 (+15% a/a) e reiteramos recomendação de compra, com a ação negociando a 13x P/L para 2026 e potencial de alta via revisões adicionais de lucro líquido.
Transportes (Lucas Marquiori / Fernanda Recchia / Samuel Alkmin / Marcel Zambello)
- GPS (GGPS3); COMPRA; Preço-alvo R$ 25,00
Desde o fim de 2025, investidores têm discutido possíveis mudanças na regulação trabalhista, tema que se tornou prioridade política do governo para 2026, dado que mão de obra é o principal insumo de custo do modelo de negócio da GPS. Duas medidas em debate são a redução da jornada semanal padrão de 44 para 40 horas e o fim do regime 6x1, com aumento de dias de folga. No curtíssimo prazo, isso tende a exigir repasse de custos, podendo virar risco para o ritmo de crescimento orgânico via ajustes de escopo em renegociações. Em conjunto, as mudanças são vistas mais como eventos de negociação do que como ruptura estrutural, com menor complexidade operacional no 6x1 e inflação de custo de trabalho mais ampla na redução de horas, exigindo reprecificação contratual. Dada a disciplina de preços e os mecanismos de repasse da GPS, não se espera compressão estrutural de margens, e a maior complexidade regulatória e custos de compliance reforçariam a tese estrutural da terceirização ao longo do tempo.
Infraestrutura (Lucas Marquiori / Fernanda Recchia / Samuel Alkmin / Marcel Zambello)
- Hidrovias (HBSA3); COMPRA; Preço-alvo R$ 4,50
A Hidrovias do Brasil reportou resultados do 4T acima das nossas estimativas em receita líquida e EBITDA, com volumes maiores e melhor precificação nos corredores Norte e Sul, apesar de base de comparação mais fraca. A receita operacional líquida atingiu R$509 milhões (+92% a/a; 57% acima da nossa estimativa) e o EBITDA recorrente ajustado somou R$160 milhões (vs. -R$8 milhões no 4T24), já ajustado por R$87 milhões não recorrentes ligados a indenizações e compensações a clientes e por R$139 milhões vinculados à navegação costeira (R$123 milhões de baixa + R$87 milhões de impairment), cuja venda foi concluída em novembro. Os volumes consolidados foram de 3,6 mil toneladas no trimestre, +65% a/a, com crescimento acima de 100% a/a nos corredores Norte e Sul, queda de 69% a/a em navegação costeira e alta de 27% a/a em Santos. O capex no 4T foi de R$102 milhões e, ainda assim, a alavancagem caiu para 2,3x Dívida Líquida/EBITDA (vs. 2,9x no 3T e 7,0x no 4T24), apoiada por recursos da venda da operação de cabotagem, melhora operacional e gestão de passivos. Para 2026, a companhia indicou plano de investimento de R$270 milhões em capex, com R$79 milhões para expansão (incluindo o projeto Floating Tipper no ETC) e R$191 milhões para manutenção e projetos de segurança e tecnologia, reiteremos recomendação de compra com o papel a 7x EV/EBITDA para 2026.
Construção Civil (Gustavo Cambauva / Gustavo Fabris / Luis Mollo, CFA)
- Nota Setorial - Construção Civil
Aprofundamos nossa análise sobre os estoques na cidade de São Paulo por métricas como faixa de preço, tamanho, estágio de construção e número de quartos, dado que essa é a principal preocupação no segmento de média/alta renda. Em 2025, lançamentos e vendas foram fortes (+34% e +9% a/a), mas os estoques subiram 40% a/a com desaceleração da velocidade de vendas nesse nicho, enquanto projetos MCMV ganharam participação com vendas +25% a/a. Os estoques de média/alta renda ainda são descritos como “administráveis” em ~9 meses de vendas, porém estão relativamente mais concentrados no alto padrão (acima de R$2,1 milhões por unidade) e as empresas listadas carregam estoques mais elevados. No nicho de média/alta renda, os estoques cresceram 38% e chegaram a 11 meses de vendas (de 7 em dez/24), e, para unidades com mais de 4 quartos ou preço acima de R$2,1 milhões, o estoque supera 20 meses de vendas. Há contraste com baixa renda, em que estoques de listadas caíram para 8 meses em dez/25, enquanto em média/alta renda passaram de 13 meses em 2024 para 19 em dez/25, e a participação de unidades prontas no estoque total subiu de 8% para 11%, o que é negativo para ROE. A preferência relativa segue por incorporadoras de baixa renda, com Tenda como principal escolha, citando resiliência macro, possível anúncio de medidas MCMV, crescimento com ROE alto e geração de fluxo de caixa, além de valuations atraentes.
Petróleo & Gás (Rodrigo Almeida / Gustavo Cunha / Bruno Henriques)
- Nota Setorial - Petroleo & Gás
Uma pesquisa de posicionamento com investidores sobre o setor de Petróleo & Gás no Brasil mostrou PRIO e Vibra como as ações mais consensuais, enquanto Petrobras é a menos preferida para a maioria, e PetroReconcavo e Braskem aparecem por último. Cerca de 60% dos investidores seguem subalocados ou vendidos em Petrobras, contra ~14% sobrealocados ou comprados, e a principal variável esperada para 2026 é o preço do petróleo para ~31% dos respondentes, com eleições e fluxos estrangeiros citados por ~25% cada. Para PRIO, a primeira extração de óleo em Wahoo e o avanço no volume de exploração são o principal catalisador de curto prazo (36%), seguido por preços do petróleo (29%), com formalização de dividendos e melhorias em Peregrino e Frade vistos como variáveis secundárias e M&A considerado com baixa relevância. Sobre o valuation, investidores veem o papel precificando otimizações em Peregrino (27%) e Brent mais alto (25%), enquanto menos investidores acreditam que um arcabouço recorrente de dividendos já esteja refletido no preço, e é citada estimativa de ~10% de yield ao acionista em 2026 com petróleo a US$62/bbl. Para Vibra, 60% esperam EBITDA/m³ entre R$171–180 em 2026 e, usando R$175/m³, deriva-se lucro líquido estimado de ~R$2,8 bilhões, abaixo da faixa de R$3,0–3,2 bilhões mais escolhida, com percepção de valuation em 10,7x P/L e “múltiplo justo” em 10–11x P/L. Para Ultrapar, há menos consenso, com expectativa de expansão gradual de margem na Ipiranga e EBITDA/m³ em ~R$161–170, o que implicaria lucro líquido de ~R$2,4 bilhões e P/L de 11,2x, e a maioria dos respondentes também aponta 10–11x P/L como faixa de valuation justo para Ultrapar e Vibra.
