Radar Diário Diário de Ações - 23/02/26
Construção Civil (Gustavo Cambauva / Gustavo Fabris / Luis Mollo, CFA)
- Nota Setorial - Construção Civil
A prévia do 4T de 2025 para as incorporadoras indica mais um trimestre sólido, com bom desempenho operacional nos segmentos de baixa renda e média/alta renda, sustentando crescimento de receita líquida à medida que as obras avançam e com margens permanecendo estáveis. O lucro líquido agregado deve crescer 76% a/a, impulsionado principalmente pelo segmento de baixa renda. No segmento de média/alta renda, houve sinais iniciais de desaceleração nas vendas, com queda de 16% a/a, enquanto a receita líquida deve crescer 8% a/a e a margem bruta permanece próxima de 35%. O lucro líquido desse segmento deve avançar 20% a/a, puxado principalmente por Cyrela, enquanto a maioria das demais empresas deve registrar queda no LPA. No segmento de baixa renda, receita líquida e lucro líquido continuam em expansão, com estimativa de crescimento de 32% a/a na receita e 315% a/a no lucro líquido, impulsionados pela melhora relevante dos resultados de Tenda e MRV. Entre os destaques do trimestre, espera-se que Cury lidere no segmento de baixa renda com crescimento de 48% a/a no LPA, ROE de 88% e forte geração de fluxo de caixa, enquanto Cyrela deve se destacar no segmento de média/alta renda com aceleração do reconhecimento de receitas ROE de 27% e LPA +41% a/a.
Serviços Básicos (Antonio Junqueira, CFA / Gisele Gushiken, CFA / Maria Schutz / Luis Mollo, CFA)
- Nota Setorial - Serviços Básicos
Quatorze utilities sob cobertura participaram da Brazil CEO Conference 2026, com Eneva e Axia sendo as mais demandadas pelos investidores, seguidas por Sabesp, Equatorial e Copel, enquanto os principais temas discutidos incluíram o leilão de reserva de capacidade, preços de energia, concessões da Enel, hidrologia em São Paulo e privatização da Copasa. Os preços-teto iniciais para térmicas anunciados pela ANEEL ficaram abaixo das expectativas, mas foram posteriormente revisados para R$2,25 milhões por MW para térmicas existentes e R$2,9 milhões por MW para novas térmicas, mantendo-se R$1,4 milhões por MW para novas hidrelétricas, com leilão marcado para 18 de março. Geradoras seguem com visão positiva para preços de energia, diante do aumento da participação de fontes intermitentes e da menor capacidade de armazenamento hídrico, o que amplia a volatilidade estrutural. Nesse contexto, empresas com posições descontratadas têm adiado vendas futuras de energia, considerando risco de hidrologia mais fraca e preços potencialmente mais altos. No segmento de distribuição, oportunidades de M&A relacionadas aos ativos da Enel devem demorar a ocorrer e a renovação das concessões pode ser postergada para o próximo ano, enquanto discussões regulatórias devem abordar inadimplência e mudanças na fórmula do custo médio ponderado de capital. No saneamento, Copasa mantém confiança no processo de privatização e espera acordo em Belo Horizonte nos próximos dias, enquanto Sabesp destacou melhora recente nos reservatórios e indicou que, caso o sistema Cantareira alcance 40% até o fim de março, a companhia poderá atravessar o ano sem grandes problemas.
Infraestrutura (Lucas Marquiori / Fernanda Recchia / Samuel Alkmin / Marcel Zambello)
- Motiva (MOTV3); COMPRA; Preço-alvo R$ 20,00
Motiva surgiu como operadora de concessões rodoviárias durante a primeira onda de privatizações no Brasil e posteriormente diversificou para mobilidade urbana e aeroportos, o que trouxe escala, mas também maior complexidade e desafios de ciclo de capital. Nos últimos anos, a companhia passou por uma ampla reestruturação envolvendo mudanças societárias, nova liderança e agenda de reciclagem de ativos e simplificação do portfólio, resultando em uma empresa mais enxuta e focada, com o quarto trimestre marcando os primeiros resultados sem o negócio de aeroportos. O ano de 2025 foi caracterizado por reposicionamento relevante do portfólio, incluindo saída de Barcas, resolução de MSVia e venda da plataforma de aeroportos, além da continuidade de iniciativas de reciclagem e alterações contratuais que atuaram como catalisadores de valor. A teleconferência do quarto trimestre destacou foco em alocação de capital diante do pipeline robusto de projetos, oportunidades de reciclagem, potenciais reequilíbrios contratuais e disciplina operacional e de capex, reforçando o compromisso com a otimização do portfólio e conclusão da transação de aeroportos. A atualização do modelo incorporou mudanças recentes do portfólio, novas premissas macro com Selic média de 13,5% em 2026 e 11,5% em 2027, revisões de receita líquida, EBITDA e lucro líquido, além de redução do wacc para 10,8% e elevação do preço-alvo para R$20 por ação. A companhia passa a operar com maior seletividade em novos projetos, mantendo racionalização do portfólio, disciplina de capex e eficiência operacional, enquanto negocia com TIR real de 11% e permanece como principal escolha no segmento de concessões rodoviárias.
Petróleo & Gás (Rodrigo Almeida / Gustavo Cunha / Bruno Henriques)
- Nota Setorial - Petroleo & Gás
O mercado de gás no Brasil entra em uma nova fase estrutural, migrando de um modelo dependente de importações e centrado na Petrobras para um ambiente mais diversificado e competitivo, impulsionado pelo aumento da oferta e por maior flexibilidade de preços entre volumes firmes e spot. No curto prazo, a expansão da oferta cria uma janela regional de excedente, favorecendo empresas com controle de pontos de entrada e logística capazes de alternar entre gasodutos e GNL e arbitrar diferenças regionais de preços. A região Sudeste tende a permanecer estruturalmente excedente até o início-meados da década de 2030 com novos volumes provenientes da Rota 3/GasLub e hubs offshore, compensando a queda das importações bolivianas e reduzindo a dependência de GNL. Posteriormente, o declínio natural da produção deve levar novamente à dependência de importações, com o pico do pré-sal por volta de 2035 caso não ocorram novas descobertas. A demanda deve ser sustentada principalmente pelo setor industrial, enquanto o consumo de energia tende a ser mais cíclico, ainda que apoiado pela maior necessidade de confiabilidade térmica diante da intermitência das renováveis. Nesse contexto, empresas com flexibilidade contratual, infraestrutura de entrada e capacidade de alternar entre GNL e gás doméstico devem capturar oportunidades associadas à volatilidade regional e às mudanças estruturais do sistema.
Varejo & Consumo (Luiz Guanais / Yan Cesquim / Luis Mollo, CFA)
- Nota Setorial - Varejo & Consumo
A reforma tributária sobre consumo entra em fase de implementação com o modelo dual de IVA, composto por CBS federal e IBS estadual e municipal, substituindo PIS, Cofins, ICMS e ISS entre 2027 e 2033, com fase de testes em 2026 e definição gradual das alíquotas próximas de 27–28%. A principal mudança estrutural é a não cumulatividade plena, permitindo crédito amplo sobre insumos operacionais e deslocando a tributação para o valor adicionado, alterando a dinâmica de margens, capital de giro e posicionamento competitivo do varejo. A possibilidade de crédito sobre logística, aluguel, tecnologia, marketing, utilidades e capex reduz custos efetivos, enquanto a liquidez desses créditos passa a ser fator determinante para o impacto financeiro durante a transição. Exceções relevantes incluem itens da cesta básica, medicamentos, regime do Simples Nacional, zonas francas, exportações e incentivos a tecnologia e sustentabilidade, que podem reduzir a carga tributária de determinados segmentos. O impacto varia por modelo de negócio, com empresas de alto volume e logística intensiva beneficiando-se de créditos mais amplos, varejistas omnichannel ganhando com padronização tributária e companhias com margens elevadas absorvendo melhor a nova estrutura. A fase de transição entre 2027 e 2030 deve elevar investimentos em sistemas, compliance e SG&A, gerar volatilidade de caixa associada ao timing de créditos e exigir adaptação operacional, com empresas maiores e com governança mais estruturada bem posicionadas para navegar o novo ambiente.
