Setor Financeiro: CEO Conference 2026: Bancos Incumbentes
Ver Relatório CompletoPrincipais destaques de Itaú, Bradesco, Santander (e Itaúsa)
Nesta semana, realizamos nossa CEO Conference 2026, com casa cheia em São Paulo e discussões interessantes. Neste primeiro relatório, resumimos os principais pontos das reuniões com os bancos incumbentes que participaram do evento — Itaú, Bradesco e Santander. Também incluímos a Itaúsa (não coberta), holding do grupo controlador do Itaú. O Banco do Brasil não participou, pois permaneceu em período de silêncio em função da divulgação dos resultados do 4T. De forma geral, as discussões reforçaram 2026 como um ano de execução, e não de definição de estratégias. Entre os três bancos, as prioridades estratégicas já estão claramente estabelecidas, com o foco da gestão voltado à entrega disciplinada, controle de custos e balanço patrimonial, além da conversão de esforços de transformação em resultados concretos de lucro líquido, ainda em um contexto macroeconômico incerto. Para a Itaúsa, as conversas concentraram-se em alocação de capital, com ênfase em disciplina, flexibilidade do balanço patrimonial e a crescente relevância do portfólio não financeiro como fonte de diversificação e geração de valor.
Como os incumbentes estão posicionados para 2026?
O Itaú destacou ganhos estruturais decorrentes de sua transformação possibilitada pela inteligência artificial, já começando a se traduzir em melhorias tangíveis de eficiência. O Bradesco demonstrou confiança de que seu guidance conservador deixa espaço para surpresas positivas, à medida que os esforços de reestruturação passam a aparecer nos resultados. O Santander, por sua vez, caracterizou 2026 como um ano de transição, com lucro líquido ainda pressionado por desafios de mercado e ajustes de portfólio, mas com maior visibilidade sobre ganhos estruturais de eficiência além do curto prazo. Nos próximos relatórios, também compartilharemos conclusões de reuniões com participantes do mercado de capitais, empresas de pagamentos, seguradoras e outros segmentos. Os bancos digitais sob nossa cobertura, Nubank e Inter, não participaram do evento. A seguir, destacamos as principais mensagens transmitidas por cada um dos incumbentes e pela Itaúsa.
Itaú: IA como habilitador estrutural, não solução mágica
O Itaú reforçou a mensagem de execução disciplinada e transformação estrutural, caracterizando 2026 como um ano de entrega operacional, e não de mudanças estratégicas agressivas. A qualidade do crédito permanece o foco central, com inadimplência esperada estável, apesar de um cenário macro mais cauteloso, justificando postura mais conservadora de provisões. A inteligência artificial é vista como genuinamente transformacional, mas não como solução isolada. A administração destacou que o progresso atual é resultado de anos de transformação digital e de dados, permitindo ajustes de modelos em tempo real e compreensão mais profunda dos clientes além da ótica puramente de crédito. Nesse contexto, o Itaú acredita estar estruturalmente bem-posicionado em relação aos pares.
Ano de execução pela frente
A disciplina de custos permanece evidente, com crescimento das despesas operacionais projetado abaixo da inflação, apesar de investimentos relevantes em tecnologia. No lado comercial, o banco segue construtivo em crédito consignado privado, onde a execução tem sido forte e não houve canibalização relevante, mantendo exposição limitada a clientes de menor renda. O crescimento permanece seletivo, com boa tração em PMEs, apoiado por canal digital eficiente. Grande parte do potencial de alta de lucro líquido para o próximo ciclo já foi “plantada” em 2025 e deve continuar em 2026, posicionando o banco para defender participação de mercado e rentabilidade nos segmentos principais, especialmente no Personalité. A administração indicou que o crescimento do EBT em 2026, assumindo o ponto médio do guidance e ajustado por dividendos já pagos, deve permanecer em linha com o ritmo do ano passado (+13% a/a).
Itaúsa: disciplina de capital e aumento da relevância do portfólio não financeiro
A Itaúsa reforçou a mensagem clara de disciplina e seletividade na alocação de capital, destacando que novos investimentos só serão realizados caso sigam a mesma lógica de geração de valor das alocações anteriores, evitando aquisições oportunistas. Apesar da ampla capacidade financeira no nível da holding — com dívida líquida próxima de zero e entrada de dividendos estimada em ~R$ 2–2,5 bilhões em 2026 — a administração reiterou não haver intenção de alavancar estruturalmente a holding, dada a baixa eficiência tributária do endividamento nesse nível. O portfólio não financeiro vem ganhando relevância, gerando quase R$ 1 bilhão em dividendos em 2025 e já cobrindo a maior parte dos custos da holding. A partir de 2027, a eliminação de ineficiências fiscais deve reduzir despesas em cerca de R$ 600–650 milhões por ano, liberando geração recorrente de caixa líquido e ampliando a flexibilidade para dividendos, recompras ou novos investimentos.
Desconto de holding ainda elevado
Os retornos do portfólio não financeiro estão se aproximando dos do segmento financeiro, apoiados por ativos de alta qualidade como Aegea, Copa Energia e NTS. Avaliações recentes a valor justo de Aegea e Copa indicam valorização adicional de R$ 5–7 bilhões no portfólio. Dexco ainda pesa negativamente, enquanto Alpargatas concluiu sua reestruturação e voltou a contribuir positivamente para a geração de caixa. Recompras de ações passaram a fazer parte do conjunto de ferramentas de alocação, especialmente sob a perspectiva de investidores estrangeiros e em ambiente de maior tributação de dividendos. A gestão caracteriza a Itaúsa como alocadora disciplinada negociando a desconto de holding superior a 23%, acima do nível considerado justo, com crescente opcionalidade de alta à medida que o lucro líquido não financeiro cresce.
Bradesco: reestruturação operacional ganhando tração
O Bradesco adotou tom mais construtivo sobre sua transformação operacional, com 2025–26 vistos como fase de inflexão. Cortes de custos serão importantes catalisadores de eficiência em 2026, após provisões antecipadas de reestruturação, ainda que as despesas operacionais permaneçam pressionadas no curto prazo. A mensagem central foi de execução gradual e foco na melhora sequencial dos resultados trimestrais. O guidance foi descrito como realista, porém desafiador, com conforto para operar no centro ou acima do intervalo projetado, desde que a execução permaneça adequada.
Risco de alta versus guidance
O guidance de receita líquida foi apontado como principal fonte de potencial surpresa positiva, apoiado por forte desempenho em crédito consignado privado, financiamento de veículos, consórcios e tarifas. O crescimento do crédito deve acelerar moderadamente, com foco em consignado, veículos e crédito rural oportunístico, mantendo disciplina de risco. A estratégia no segmento de menor renda passou de defensiva para monetização, apoiada por uma base digitalizada. Contudo, a materialização do potencial depende de execução consistente e ambiente macro mais favorável.
Santander: migração tecnológica em estágio final
O Santander reiterou que 2026 seguirá como ano de transição, aproximando-se do estágio final da migração tecnológica, ainda convivendo com duplicidade temporária de custos. O desligamento de sistemas legados deve destravar eficiência estrutural relevante ao longo do tempo. As despesas operacionais devem crescer abaixo da inflação, reduzindo pressão sobre resultados no curto prazo.
Postura cautelosa em crédito
A visibilidade da receita líquida segue pressionada por desafios na margem financeira com mercado, com impacto negativo estimado em ~R$ 1,0 bilhão devido a posições prefixadas antigas com carrego negativo e estruturas de hedge pouco eficazes, com normalização mais relevante apenas a partir de 2027. A margem com clientes também deve sofrer pressão por taxas médias menores. A estratégia de crédito permanece defensiva, com critérios mais rígidos para baixa renda e PMEs, cautela em consignado privado e estabilização da carteira agro. O foco permanece em disciplina, resiliência do balanço patrimonial, eficiência e controle de risco.
Reiterando nossas preferências
Os bancos incumbentes continuam cautelosos quanto ao cenário macro e aos níveis elevados de alavancagem, especialmente em segmentos de menor renda. Nesse contexto, mantemos nossas preferências relativas. O Itaú segue como nossa Top Pick entre incumbentes (a única recomendação de compra), melhor posicionado para navegar as mudanças estruturais do sistema bancário brasileiro, com execução disciplinada, ganhos de eficiência e histórico consistente, devendo crescer acima dos pares. O Bradesco aparece como segunda opção, com reestruturação ganhando tração, embora com perspectiva mais conservadora de receita líquida. O Santander, apesar de avanços estratégicos, permanece nossa menor preferência para 2026 devido ao momento de resultados mais fraco no curto prazo. Fora dos incumbentes, seguimos construtivos com bancos digitais, com Nubank e Inter como exposições preferidas, refletindo preferência por plataformas digitais escaláveis com maior opcionalidade de crescimento no longo prazo.
