Da regulamentação à proibição? O Brasil pode estar caminhando para uma reversão dramática de sua política para apostas. Segundo reportagens da imprensa brasileira, o governo federal está preparando uma medida provisória (MP) que poderá proibir jogos de cassino online e impor restrições — ou potencialmente uma proibição — às apostas esportivas. O texto final ainda está sendo elaborado e pode sofrer alterações, mas o governo estaria tratando a proposta como algo próximo da extinção dos jogos online. Isso ocorre menos de dois anos após o lançamento formal do mercado regulado de apostas, em janeiro de 2025.
Apostas no Brasil: do consumo drenado à reação regulatória
Da regulamentação à proibição?
O Brasil pode estar caminhando para uma reversão dramática de sua política para apostas. Segundo reportagens da imprensa brasileira, o governo federal está preparando uma medida provisória (MP) que poderá proibir jogos de cassino online e impor restrições — ou potencialmente uma proibição — às apostas esportivas. O texto final ainda está sendo elaborado e pode sofrer alterações, mas o governo estaria tratando a proposta como algo próximo da extinção dos jogos online. Isso ocorre menos de dois anos após o lançamento formal do mercado regulado de apostas, em janeiro de 2025.
Uma carteira de consumo de R$ 37 bilhões que não existia alguns anos atrás
O debate regulatório precisa ser analisado à luz da velocidade extraordinária com que as apostas se transformaram em um componente relevante do gasto das famílias brasileiras. Conforme discutimos em relatórios anteriores (Retailnomics – O grande mercado de apostas), dados oficiais mostraram 25,2 milhões de apostadores únicos em 2025, aproximadamente 15% da população adulta, enquanto o GGR do mercado regulado atingiu aproximadamente R$ 36,9 bilhões. Continuamos acreditando que o GGR (apostas menos prêmios pagos) é a métrica correta para avaliar o impacto sobre a renda disponível, e não as transferências brutas via Pix, que incluem uma reciclagem significativa dos prêmios pagos aos jogadores. Mesmo antes da regulamentação, a escala já era impressionante: estimativas do Banco Central apontavam para transferências brutas mensais para empresas de apostas entre aproximadamente R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões em 2024, embora aproximadamente 85% retornassem aos apostadores na forma de prêmios. O resultado é que, em apenas alguns anos, as apostas criaram um novo competidor bilionário pela carteira de consumo dos brasileiros.
As apostas podem ter adicionado mais uma camada ao problema de endividamento das famílias no Brasil
Isso é particularmente relevante porque o boom das apostas coincidiu com um ambiente já difícil para os balanços das famílias brasileiras. Como destacamos recentemente, o endividamento das famílias brasileiras está próximo de 50% da renda disponível, enquanto o serviço da dívida consome cerca de 30%, com a situação sendo substancialmente pior entre consumidores de menor renda. Não é possível identificar as apostas como a única causa — ou necessariamente a principal — da deterioração financeira, considerando juros elevados, expansão do crédito e pressões mais amplas sobre acessibilidade, mas existem evidências crescentes de que elas agravaram o estresse financeiro para uma parcela das famílias. Uma pesquisa de 2024 citada em processo do TCU mostrou que 45% dos apostadores entrevistados relataram perdas financeiras com apostas e 37% afirmaram ter utilizado recursos originalmente destinados a outras despesas importantes. Dados do Banco Central também mostraram que aproximadamente 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família transferiram R$ 3,2 bilhões para empresas de apostas por meio de Pix apenas em agosto de 2024. Importante destacar que esses valores representam transferências brutas e não perdas líquidas, mas os dados ilustram a exposição de famílias financeiramente mais vulneráveis. Mais recentemente, o governo chegou ao ponto de impedir beneficiários do Bolsa Família, BPC, Fies e programas de renegociação de dívidas de manter contas em operadores licenciados de apostas, com mais de 3 milhões de pessoas já bloqueadas até agosto de 2026.
Menos apostas pode significar mais consumo — mas a migração para operadores ilegais é o principal risco
O rápido crescimento das apostas ocorreu em um período no qual as famílias de menor renda já destinavam uma parcela incomumente elevada da renda ao pagamento de dívidas, enquanto os varejistas enfrentavam volumes fracos e restrições de acessibilidade. Nesse contexto, mesmo que apenas parte dos aproximadamente R$ 37 bilhões anuais de GGR migrasse de volta para consumo tradicional ou amortização de dívidas, o impacto poderia ser relevante na margem. A transmissão provavelmente seria mais forte entre consumidores de menor renda, para os quais um incremento mensal de R$ 100 a R$ 200 na renda disponível possui uma propensão muito maior ao consumo. Ainda assim, o benefício não deve ser mecanicamente associado ao tamanho total do mercado de apostas: parte desse gasto desapareceria, parte poderia se transformar em poupança ou pagamento de dívidas e parte poderia migrar para operadores ilegais. Este último ponto é crucial. O Brasil passou os últimos dois anos trazendo um enorme mercado offshore para dentro de um arcabouço regulatório; uma proibição completa poderia reverter parcialmente esse processo.